24 de marzo de 2012

Tu era afim de mim ou alguma coisa assim?

A pergunta veio de repente. Rápida e atordoante. Sem qualquer cerimônia. Caraca! Perguntas assim precisam de um preâmbulo, de um clima. É como se o escritor de um livro de mistério, revelasse o nome do assassino já no primeiro parágrafo! Mas deixa pra lá. Tanto faz agora. Preciso responder a pergunta e é isso que interessa. Vou falar o quê? Mentir ou falar a verdade. Como vou saber responder algo que aconteceu há 20 anos? Como? Procuro lembrar aquela noite. Vasculho entre lembranças. Era época de férias. Era tímido. Tomei coragem e durante um desfile de rua, convidei-a para sair no dia seguinte. Era carnaval em Santa Maria, isso eu lembro. “A primeira vez, a gente nunca esquece”. Quem inventou isso com certeza tinha menos de 40 anos. Não consigo recordar os detalhes, os motivos. É como se o meu cérebro tivesse entrado em pane, deletado alguns arquivos. Foi um bug, um vírus que apagou a minha memória. 
Penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso penso. 


Do nada, começo a sentir ciúmes do namorado que mal dava atenção pra ela. 
Penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso penso. 


Deduzo que se sinto ciúmes ainda é porque gostava... 


Penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso penso. 


Digo a verdade ou minto. 
Falo que gostava sim e me sujeito a um comentário cruel qualquer, à indiferença? Será que ela sentia algo por mim? Ou talvez diga apenas talvez e reticências.... Ela cansou de esperar. O ícone do MSN mostra que ela agora está indisponível. Foi ao banheiro? Foi atender uma ligação? Agora nada mais importa. Preciso sair também. Deixei uma panela de arroz no fogo e cheira a queimado. Preciso buscar o meu filho na escola, dar comida pro cachorro e retornar uma ligação da minha mulher. 


Penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso penso. 


Levanto da cadeira e estico o corpo. Fiquei tão bêbado aquela noite. Aos poucos, começo a lembrar de certos momentos. Lembro que fui com ela na boate do DCE. Tentei ser agradável, simpático, comunicativo. Demonstrar que era um excelente candidato ao Namorado Perfeito do Ano apesar da minha inexperiência. É de rir, eu sei. Lembrar tudo isso agora me causa estranheza e desconforto. Fiquei tão nervoso que bebi demais. Soda com cachaça. Adorava isso. Qual era o nome mesmo? Porradinha, creio eu. O nome talvez fosse esse porque depois de misturar a soda com a cachaça, era necessário chacoalhar o copo com força, usando a mão, como tampa. Depois era tomar tudo de um gole só e agüentar a “porrada” no estômago. Quanta bobagem!


Penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso penso. 


Vou pegar mais uma bebida no balcão. Porradinha para mim, Cyrilinha para ela. No escuro enquanto toca Pavão Misterioso do Ednardo em alto e bom som, garotos e garotas dançam, bebem e gritam. A boate está lotada e depois de pagar pela bebida, tento voltar no meio de tanta gente. Procuro não derrubar nada mas está difícil, pois dezenas de corpos pulam de forma alucinada. Saindo da penumbra, consigo enxergar a minha garota. Ela está embaixo de uma espécie de escada e parece que conversa com alguém. Vejo lentamente que é um rapaz e descubro agoniado que é o namorado que mal dava atenção para ela. E justo hoje, justo agora, ele decide compensar o tempo perdido. Fico estático, o coração parece que encolhe violentamente de tamanho. Fico zonzo e não enxergo mais nada. Saio e encontro a rua. Alguns colegas me cumprimentam mas faço que não é comigo. Continuo a andar. Chego à Rio Branco e depois de muitas voltas pelo calçadão, decido dormir na Casa do Estudante. 


Penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso, penso. 


Volto ao computador e a mim. Começo a digitar: 
Como o vento norte que enche os meus olhos de suor e poeira. Como o minuano que me pega na esquina e me provoca irritação e frio.
Foi assim, repentinamente, que perdi a inocência. 


O meu coração bate a cada dia mais lento. Desligo o PC.

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