8 de octubre de 2016

Fluoxetina

Ela é feita de tatuagens
marcas no braço
e grita 
quando fala.







Conta que toma fluoxetina
- de vez em quando -
para construir um espaço próprio 
onde possa ficar mais tranquila.
São diversas habitações 
ambientes e decorações alegres
uma para cada ocasião.
Se o céu estiver choroso
se saiu uma espinha na testa
ou o nariz estiver fungando.

É uma jovem de quase trinta
de longos cabelos negros
ascendência chinesa
e cheiro a cigarro barato.
Não gosta que a toquem
foge de estranhos
e prefere os gatos 
a namorados imberbes.

Emagreceu horrores
- diz que passou fome -
trabalhou com faxina no porto
foi humilhada
sofreu assédio
e não haviam amigos por perto.
Agora, está a vender lingerie 
entre os bares do centro
mas bebe mais do que vende
pois sabe que não tem futuro
no meio de tantos que só circulam.

Ela entrou no filme errado
com timing próprio
nua e crua
sem meias palavras
não foi feita para vencer
apenas para roubar o prazer 
daqueles que possuem muito
pouco compartilham
e morrem sozinhos.



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