29 de septiembre de 2010

Janelas Nuas

A história a seguir veio à minha memória com a notícia de ontem: Crianças bolivianas pagam para não apanharem nas escolas públicas de São Paulo.


Lima não é mundialmente conhecida como uma cidade onde faz frio. O clima é temperado ou era temperado, pois com o aquecimento global e "el Niño" aprontando de todas, não existe mais clima equilibrado no mundo. Mas, voltando à história e à década de 80, mesmo que não fizesse um frio de renguear cusco, passar o inverno todo numa sala de aula de janelas vazias, sem vidros ou vidros quebrados - não é um programa dos mais agradáveis. Aí que entra a minha santa mãe na história. Ela, toda preocupada com a minha saúde (asma), decidiu pagar do próprio bolso a compra de metros e metros de um plástico grosso, mas transparente. Grosso o suficiente para agüentar a ventania até chegarem os vidros prometidos pelo ministério e transparente por razões óbvias. Ela tinha a melhor das intenções, mas ser tão mimado na frente dos colegas de classe, da escola toda, ninguém merece. E tudo tem seu preço.

Tem briga, briga, briga!!!
O grito espalha-se por toda a escola. È a hora da saída. Do tumulto, da balbúrdia. Crianças misturadas com adolescentes. Meninas disputando a atenção dos marmanjos. Turmas e gangues diversas, rostos e cores, espinhas, cabelos curtos e longos. È o caos.

O grito anunciando uma briga, mesmo trinta anos depois, ainda me faz tremer.

Um grupelho de boçais, imberbes e piralhos saem em disparada atrás dos gritos. Mais na frente, dois grupos andam em separado. Os contendores e seus respectivos comparsas encaminham-se para a arena escolhida para o duelo.

Duelo? A palavra lembra épocas passadas onde se costumava lavar a honra com sangue.

Logo veremos uma disputa de forças pueril e insana. Como dois machos demarcando espaço, querendo provar quem é o mais forte, o líder e quem irá ficar com a melhor fêmea da manada.

O local escolhido é uma construção inacabada. E o seleto público esparrama-se por cima de paredes expostas, tijolos e concreto. O “ring” é um cômodo de 4 x 4 sem teto e janelas nuas, com lixo, fezes de cachorro, pedras e muita areia espalhada.

Cada um de seu lado. Tiram a blusa, arregaçam as mangas, arrumam o cabelo ensebado e trocam os tênis por sapatos de couro grosso e ponteira metálica.

Começa a rixa, a luta, o embate. Primeiro um jab de esquerda, um chute de direita, uma cabeçada. O enrosco, o agarro, a mordida, vale tudo. São como dançarinos, tentando acertar o golpe perfeito, definitivo. Um soco violento entra certeiro. O sangue escorre. Um dos lados fica abalado. A patada com força derruba-o de vez. O rosto, o corpo estendido, dolorido recebe mais e mais golpes no chão. A chusma grita e fica exaltada. Entram os mais velhos e param com a briga.

Nunca soube qual é o momento exato, certo de parar uma luta. Talvez um lampejo de bom senso mande parar com tudo antes que alguém morra ou fique quebrado para sempre.

A turma de expectadores e curiosos se dispersa aos poucos. O perdedor levanta-se com ajuda dos amigos e limpa o sangue e a sujeira com a camisa puída que já foi branca algum dia. Todos vão para casa, uns felizes, satisfeitos por terem provado a sua superioridade e macheza. Outros remoem a vergonha da derrota e planejam vingança, a revanche. E a vida continua.

E a vida continua? Só se for pra você. Eu ainda ouço as vozes:
- Fulano falou que você é o “filhinho de mamãe”, um mimado, um viado.
São vozes de todos os lados, querendo despertar a minha raiva, a minha hombridade. Devo entrar numa briga daqui a pouco. Sou homem e os homens brigam, se defendem, agridem e machucam.

Os minutos passam como se fossem segundos. Começo a suar. As mãos tremem e as pernas amolecem. Parece que vou cair e desmaiar. Agora treme o corpo todo. Maldita sensação de medo, paura. Não quero brigar. Não quero apanhar. Não fui feito pra isso.

As vozes começam a ficar mais fortes e agressivas e toca o sino. A aula acaba. Todos saem. Menos eu. Fico na sala pregado na carteira. Os meus “amigos”, colegas, companheiros me olham surpresos, incrédulos. E o que até agora pouco eram palavras de incentivo, transformam-se em palavras de desprezo. Sou xingado, vilipendiado, pois irei envergonhar a turma, a classe como um todo.

Nunca irão esquecer do meu fracasso, da minha covardia e talvez o mais revoltado do grupo decida brigar por mim, tomar o meu lugar e defender a minha, a nossa honra.

Continuo tremendo. Trinta anos depois ainda tremo. E toda vez que sinto o frio
que escapa pela fresta de uma janela quebrada, lembro da minha mãe, da minha covardia e da minha calça molhada.

Medo de morrer nunca tive. Medo tenho é de sofrer. Porque sofrer dói e isso é de matar.

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