1 de enero de 2024

De imagens e espelhos (revisto atemporalmente ad eternun)


A qual imagem você se refere?
Ao meu rosto no espelho numa segunda de manhã?
Ou à refletida no vidro escuro de um shopping qualquer?

Espinha amarela, lábio rachado, 
uma pinta fora de lugar, 
 sangue na blusa, 
gordura localizada, riso idiota.

Sou tudo isso? 
Ou é apenas uma vaga e efémera ilusão?
E se não consigo saber algo tão simples, 
como tu queres que saiba teus segredos?

Por favor, descreve teu rosto,
descobre teu corpo,
pinta tua puta áurea imunda.


Preciso de uma pista. És covarde.
Tu me vês e num piscar de olhos
extrais o pouco que resta.

Cadê teu filho a chorar à beira da janela?
O tiro no meio da madrugada?
O lençol úmido pela chuva da manhã?

És ingrata mas o erro foi meu por querer me iludir.
E agora desapareço entre vidros quebrados e reflexos daquilo que fui algum dia.

Um fado, uma esmola.
A morte em suaves prestações mensais.
Do desamor ao desalento. 
Das perguntas difíceis às respostas complexas. 
Do dito pelo não dito. 
Cansei. Nada me atrai. Nada me fascina. E mais um ano que termina.
¡VE CON DIOS!








Penúltima publicação - 30/12/21