14 de junio de 2007

No meio da bagunça

Entre centenas de livros, jornais velhos e muitas revistas empoeiradas, vejo um pedaço pequeno de papel rasgado. Está escrito algo e parece que era a página de um dicionário ou algo parecido. Parece a explicação de uma palavra, o seu significado:

Sauda = um tempo, pessoa, ausente, lembrança, triste.

Do nada, um sentimento de remorso toma conta de mim. Uma sensação de vazio, tédio e impotência. É o passado que fustiga o meu corpo e enlouquece as minhas lembranças.

Correndo, tento achar o meu álbum de fotos não sem antes espirrar de tanta poeira. Consigo achá-lo. Uma capa suja de couro e algumas fotos amareladas. Vou virando as páginas, uma a uma. Como se tivesse medo de encontrar algo dolorido. São apenas fotos, digo eu. Mas os meus sentimentos não obedecem. Com muito esforço, continuo a buscar a foto. Deve estar por aqui. Nunca mais mexi com o álbum. Quanto tempo já se passou? Dez, vinte, talvez mais, talvez menos.

A foto está aqui sim. Um foto preto e branco, com moldura presa à cartolina preta com pequenos triângulos.

Ela não mudou nada. Os fortes olhos azuis continuam a me fitar com raiva e desprezo. Um rosto delicado, nariz fino, boca pequena. Cabelos loiros e um corpo franzino. Está rodeada de antigos colegas de trabalho. Lembro o nome de cada um, apesar de não ter tido mais contato. Saí daquela empresa pela porta dos fundos, como costumam dizer. Fui demitido sem saber os motivos.

– Você é talentoso, trabalhador e excelente profissional, mas foi necessária a sua dispensa. Estamos reestruturando a área, o departamento – foi o que me disseram.

Mas nem precisavam falar o motivo verdadeiro. Eu já sabia a causa, a razão de tudo.

Falei mal. Critiquei o trabalho da minha chefe direta na frente dos meus outros colegas e da diretoria. Fui duro, sem meias-palavras. Recitei um velho chavão – não existe equipe ruim, existe sim um mau líder. E ri por dentro.

Os olhos azuis se encheram de lágrimas.

Revejo a foto. Ela está sorrindo e sinto saudades. Foi-se o tempo. Uma pessoa, uma amiga ausente. Uma lembrança triste. Sinto saudades.

Fecho o álbum e continuo com a faxina. Coloco todo o lixo em caixas grandes de papelão. Passo fita durex mais de uma vez em torno delas. Quero que fiquem bem fechadas, hermeticamente fechadas. Não quero que nada escape, que nada fuja. Coisas velhas e sentimentos foram feitos para serem guardados e de vez em quando, jogados fora.

Termino a arrumação. Nada sobrou. Apenas as caixas. Caixas e mais caixas deixadas do lado de fora, indo até o teto. Não consigo mais fechar a porta, mas não faz mal. A única saída do quarto foi bloqueada e é isso o que importa.

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