2 de marzo de 2012

UM JEANS VELHO, SUJO E DESBOTADO.


UM JEANS VELHO, SUJO E DESBOTADO.
Era época da amizade colorida. Do compromisso não assumido.
Da felicidade ingênua.

Fui à Feira do Livro depois da aula. A turma do segundo ano era a responsável pelo evento e tudo indicava que ela estaria por lá numa barraquinha qualquer, atrás de inúmeros livros. Não a achei. Olhei barraca por barraca de forma discreta e dissimulada, pois afinal imaginava que ninguém sabia do meu interesse por ela. Eu, um calouro, afim de uma colega mais velha e sem lugar a dúvidas, a mais bonita de todas.
Fui pego de surpresa. Uma outra colega do 2do ano veio falar comigo e meio que sacando o meu desalento, disse que ela não estava. Viria mais tarde, sei lá. Tentei disfarçar. Falei que estava aí por outros motivos. Buscava certo livro, de um autor X e de uma pequena editora, etc e tal. Não colou. Percebi isso olhando para a minha colega rude e indiscreta que de tanta raiva nem lembro mais o nome dela. Recordo apenas que era gorda, imensa, ou melhor, em termos politicamente corretos, alguém de IMC bem acima do saudável e necessário.
Fugi de lá que nem cusco no meio de uma procissão. Dei voltas e voltas na praça sem saber aonde ir. A Feira do Livro ocupava o miolo central da principal praça da cidade e lembro do pequeno chafariz, que permanecia sempre desligado, sumido entre as barracas vermelhas de refrigerante.
Foi o meu primeiro ano na cidade e não foi fácil a adaptação para quem veio de tão longe. Um novo idioma, um povo diferente e, the last but not the least, mulheres extraordinariamente fora do comum. Parece mentira, mas o que mais me chamou a atenção foi o fato de ver tanta mulher loira e de olho claro, trabalhando como balconista. Pois, do lugar que eu vim, brancos são elite e com certeza nunca ficariam atrás de um balcão mesmo que fosse para vender ouro e diamantes.
Mas voltando à Feira, depois de muito enrolar ao redor da praça, deduzi pelo roncar do meu estômago que estava na hora de comer ou encher o bucho, melhor dizendo.
Caminhei algumas quadras e cheguei ao restaurante universitário, o famoso RU. A comida não era lá grande coisa, porém para quem vivia com o dinheiro contado, fazia uma grande diferença. O ruim era enfrentar a fila quilométrica e o ideal era chegar bem cedo ou deixar para bem mais tarde. Entrei na fila, dei uma olhada ao redor e não achei ninguém conhecido. Após a refeição e de devolver a bandeja, fui até o centro acadêmico para descansar e ler alguma bobagem.
Uma ou outra estudante no pedaço. Ninguém interessante. Peguei uma velha revista entre panfletos e mais panfletos. Após uma rápida lida voltei a procurar por mais alguma e um panfleto chamou a minha atenção. Era a convocação para uma passeata em frente à Reitoria. Mais uma vez o MEC, apesar do apelo de professores e alunos, havia empossado um Reitor sem qualquer respaldo da comunidade. Os anos de chumbo tinham ficado para trás, mas a intolerância e a rigidez militar ainda tomavam conta do país e de todas as decisões importantes.
Não tendo aula à tarde e entre voltar para o meu cômodo alugado e ver algum movimento, optei pelo segundo.
Dei mais um tempo. Fui ao calçadão olhar as vitrines e as gurias e como não havia nada de especial, entrei na livraria folhear alguns livros. O best seller, o líder de vendas era a autobiografia de tal de Lee Iacoca que entre outras coisas, havia aberto mão do salário para conseguir reerguer a Chrysler. Achei uma idéia bacana, pena que eu não tinha salário nem para conseguir terminar o livro. Quem sabe algum dia.
Bom, chegou a hora da muvuca. Fui à frente da Reitoria em poucos minutos, pois cidade pequena não costuma espalhar seus principais prédios.
Havia pouca gente ainda ou para sermos mais exatos, 4 ou 5 gatos pingados. Todos cabeludos, barbudos, de jeans e camiseta com a bolsa atravessada no peito. Nenhuma garota ou pelo menos nenhuma garota bonita, pois havia um cabeludo que até hoje não sei se era homem ou não.
Sentei numa mureta e esperei. Para tristeza dos organizadores ao invés de chegarem mais estudantes, chegaram sim os brigadianos de capacete e cassetete. Tremi nas bases mas achei melhor esperar mais um pouco. De repente, como se fosse uma canção da Maria Betânia, ela surgiu na multidão. A garota mais bonita da faculdade e por que não de toda a universidade e vai saber, de toda a cidade e redondezas. À frente de um grupo de meninas que carregavam uma faixa xingando o reitor, gritando palavras de ordem e mostrando firmeza no andar.
Se eu já estava tremendo, então quando ela olhou para mim e deu um sorriso de ponta a ponta, caí da mureta e um brigadiano ficou me fitando feio. Fiz de conta que não era comigo e fui devagarzinho, devagarzinho, me esconder atrás de uma pilastra.
Na seqüência das meninas apareceram mais e mais garotos e alguns professores. Vi rostos felizes, rostos que apesar dos tempos ainda difíceis sabiam que valia apena lutar e defender o que achavam justo e correto.
O prédio da reitoria ficou cercado de tanta juventude. As palavras de ordem cada vez mais fortes, mais incisivas e atrevidas. Ninguém arredou pé apesar do aumento no número de policiais. Eu dei um passo atrás para dar dois à frente e me enfiei no meio da multidão.
Ela estava lá, em cima de várias carteiras, gritando ao megafone. As palavras ficaram no tempo, devo admitir. Mas a lembrança dela gritando, suando, com os cabelos escuros cobrindo o rosto e agitando uma camiseta vermelha, é algo que não esqueço até hoje.
Era uma época de sonhos e delírios de grandeza. De se levar tudo a sério. De desejos e fantasias. Sem a ameaça da violência urbana na volta da esquina, dos insidiosos celulares ou da promiscuidade na internet. Havia apenas uma camiseta vermelha e um jeans velho, sujo e desbotado. Um corpo nu, uma cuia de chimarrão, um cobertor amarrotado, um cigarro fino, uma poesia recém escrita.
Penso que o primeiro aviso de estar ficando velho e decadente é quando aparece o saudosismo com força e as palavras ficam repetitivas. Deve ser isso. O saudosismo tomou conta de mim da mesma forma que a guria de cabelos longos e encaracolados, o fez 20 ou 30 anos atrás.
A manifestação, a passeata não deu em nada. De nada adiantou tanta gritaria, tanta baderna, tanto empurra-empurra. O novo reitor recusou-se a receber a comissão de representantes. Fez pouco caso das reivindicações e ficou à frente da reitoria até terminar o seu mandato. Depois veio a abertura, lenta, gradual e segura para alguns poucos.
Terminei a faculdade e decidi cair no mundo, como se diz por aí. Nunca mais a vi, depois daquela noite, e se alguém tiver notícias, por favor me fale. Preciso devolver a camiseta vermelha que ela esqueceu no meu pequeno cômodo junto com o panfleto todo sujo de terra e batom.
Abro a janela para deixar circular o ar dentro de mim. Vejo a cidade após uma pesada chuva. E do nada começo a gritar: Abaixo Valadão, abaixo Valadão... queremos um reitor novo e bonitão...
Abaixo Valadão, abaixo Valadão... queremos um reitor novo e bonitão...
Algumas luzes começam a piscar no prédio em frente.

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