24 de julio de 2009

Odete F. C.©

Odete nunca foi de falar muito. E mesmo que quisesse não teria com quem falar. Morava apenas com os pais que saíam logo cedo para cuidar da fazenda vizinha. Praticamente só, a pequena Odete cresceu, cuidando do almoço e da ração dos outros bichos. Limpando a casa, limpando o curral. Colhendo frutas e legumes e semeando a terra dura de doer. A sua única diversão era uma bola de couro surrupiada do pai. Toda estropiada e mal costurada. Suja de barro e outras porcarias. Com ela, a Odete passava todas as tardes. Mesmo com chuva ou sol a pino, a Odete brincava de bola, tomando pra si, o cercado onde convivam galinhas e patos. Um cercado feito de madeira velha e que servia de campinho (reparem que não digo campinho de futebol, pois a Odete não sabia o que era futebol e muito menos que havia regras e tradições a serem seguidas). Dentro do cercado, a Odete pegava a bola e saía a driblar galinhas e patos, ou melhor, jogava um dia no time dos patos e no outro, no time das galinhas, ficando o tempo todo com a bola. Não pelo fato de ser a sua dona mas sim porque suas infelizes companheiras de time, ao invés de participar avidamente do jogo, fugiam toda vez que a bola lhes vinha em cima. Devo admitir, que as galinhas eram mais ágeis enquanto que os patos – duros de cintura – teimavam a ficar entre a bola e as tábuas de madeira. A graça do jogo, consistia em driblar o maior número possível de aves e depois bater a bola na cerca. E quanto mais conseguia bater, mais tempo ela jogava e se divertia. Era drible pra cá, drible pra lá. Dribla um, dribla dois, dribla três e chute na cerca!!! Sorte da Odete, azar dos outros. Vez ou outra, uma galinha ou um pato saía machucado. Era pena e poeira para todo lado. E o galo que detestava o jogo e se achava dono do galinheiro, vivia a reclamar com razão. Piando, cocoricando, ciscando e pulando de madeira em madeira e às vezes fugindo do cercado. Anos se passaram, e começou a faltar comida na casa de Odete. Os pais ficavam o tempo todo em casa, brigando de hora em hora. Mas Odete não desanimou, pois apesar das galinhas e patos começarem a sumir, ela continuava a driblar e chutar. Agora com certo cuidado, afinal havia uma criança entre elas. Era a Berenice recém saída da barriga da mãe e que ficava dentro de um saco de juta pendurada numa estaca no meio do cercado. No fim, restou apenas a Filomena e a Dorotéia, duas craques dos velhos tempos e que agora nem para caldo serviam. Coitada das duas, uma vivia a coxear e a outra de tão idosa, arrastava pelo chão. Mas foi com elas que a Odete decidiu, um dia qualquer, sair pelos campos afora. Cansada de brincar dentro do pequeno cercado, saiu driblando tudo que passava pela frente, com a Berenice nas costas e a Filomena e a Dorotéia, tentando acompanhar o ritmo. O pequeno sítio cada vez mais distante. O sol se pondo. As estrelas surgindo. E ela nada de cansar e parar de driblar. Foi assim que sumiram no horizonte. Odete Futebol Clube, um time dos sonhos.

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